De Corpo Inteiro foi um projeto artístico, inclusivo e participativo que propôs um diálogo entre a dança contemporânea e as artes visuais, colocando o corpo no centro do processo de criação, descoberta e expressão.
Desenvolvido pelas artistas micaelenses Milagres Paz, na área da dança, e Sofia de Medeiros e Nina Medeiros, nas artes visuais, o projeto dirigiu-se a pessoas com deficiência visual, limitações físicas ou incapacidades intelectuais, criando um espaço seguro e acessível para a experimentação artística e para a valorização das capacidades individuais de cada participante.
Partindo da relação entre o movimento do corpo e o desenho, De Corpo Inteiro explorou diferentes formas de comunicação e expressão através do gesto, do traço, da mancha, da textura e da ocupação do espaço. O corpo deixou de ser entendido apenas como suporte do movimento e transformou-se num verdadeiro instrumento de criação, capaz de produzir imagens, registar emoções, estabelecer relações e construir novas formas de contacto com o mundo.
Ao longo de dois meses, foram realizadas nove sessões criativas, desenvolvidas em colaboração com a Associação de Cegos e Amblíopes dos Açores e a Associação Seara do Trigo. Através de exercícios orientados pelas três artistas, os participantes foram convidados a reconhecer e explorar o próprio corpo, a sua relação com os outros e com o espaço envolvente, recorrendo a práticas que cruzaram o movimento, a dança, o desenho e a experimentação plástica.
As sessões procuraram estimular uma maior consciência e perceção corporal, desenvolver competências sensoriais, motoras e expressivas e reforçar a autoestima, a autonomia e a autoconfiança. O projeto valorizou igualmente formas de comunicação não verbal, permitindo que cada participante encontrasse modos próprios de se expressar, independentemente das suas características, limitações ou experiências anteriores no campo artístico.
Mais do que trabalhar para públicos específicos, De Corpo Inteiro procurou construir um processo artístico verdadeiramente inclusivo, no qual a diferença não foi entendida como um obstáculo, mas como uma possibilidade de criação. Cada corpo foi reconhecido como portador de uma linguagem, de um ritmo, de uma memória e de uma forma particular de ocupar o espaço. Foi a partir dessa diversidade que o projeto se desenvolveu, reconhecendo todos os participantes como autores e criadores.
O processo culminou numa sessão pública e numa exposição no Museu Carlos Machado, onde foram apresentados os trabalhos e as experiências desenvolvidos ao longo das sessões. A exposição permitiu dar visibilidade ao percurso realizado e reconhecer publicamente o contributo artístico de cada participante, aproximando a comunidade dos processos de criação inclusiva.
A apresentação integrou ainda uma estrutura imersiva e participativa, concebida como um espaço onde o público pôde entrar, movimentar-se e desenhar com o corpo sobre diferentes superfícies. Esta experiência prolongou o trabalho realizado durante as sessões e convidou todos os visitantes a refletir sobre a relação entre corpo, espaço, gesto e criação artística.
Ao abrir o processo à participação da comunidade, o projeto promoveu o encontro entre pessoas com diferentes experiências e capacidades, estimulando a empatia, a partilha e a reflexão sobre questões como a acessibilidade, a diferença, a autonomia e o direito de todos à participação cultural.
Integrado na curadoria de Artes Inclusivas da PDL26 – Capital Portuguesa da Cultura, De Corpo Inteiro contribuiu para a afirmação da inclusão como uma dimensão estruturante da programação cultural. O projeto reforçou o papel da cultura enquanto instrumento de coesão social, cidadania e transformação, promovendo o envolvimento de comunidades tradicionalmente menos representadas nos processos de criação artística.
Ao mesmo tempo, valorizou o trabalho de criadores locais e incentivou o desenvolvimento de práticas contemporâneas, interdisciplinares e participativas, capazes de gerar metodologias inclusivas, passíveis de continuidade e adaptação a outros contextos.
De Corpo Inteiro trouxe à programação da PDL26 um espaço onde todos os corpos contaram, onde cada gesto se pôde transformar em linguagem e onde a diversidade foi reconhecida como uma força criativa. Um projeto em que o ato artístico se tornou um exercício coletivo de pertença, visibilidade, liberdade e transformação social.
