Com um percurso consolidado entre a Terceira, Lisboa e Paris, Sandra Rocha afirma-se hoje como uma das artistas mais coerentes e instigantes da fotografia contemporânea portuguesa.
Nos últimos anos, com espacial incidência, em 2025, Sandra Rocha tem fotografado espaços marinhos — reais e imaginados — que aparecem como territórios de relação, memória e projeção. O mar não apenas como paisagem, mas como um campo vivo entre o que é visível e o que permanece submerso, criando um espaço híbrido, onde a fotografia funciona como um lugar de observação mas também de escuta e de imaginação. É sempre de um fora de campo implícito, sem ser revelado, que percecionamos, estruturante para a própria imagem. Esse desvio introduz uma tensão entre o que é mostrado e o que permanece oculto, aproximando o trabalho de uma construção narrativa onde a ficção se insinua. Interessa-me pensar estas figuras como recorrentes, como se atravessassem diferentes exposições e histórias, assumindo novos contextos mas mantendo uma continuidade silenciosa. Como se fossem os mesmos atores, deslocados para narrativas distintas, contribuindo para um universo fragmentado onde cada imagem é parte de algo mais amplo, sempre incompleto.
O trabalho de Sandra Rocha destaca-se pela sua profunda coesão estética, onde a imagem técnica transcende o mero registo para se tornar uma investigação sobre a memória, o território e a condição humana. Séries como a que recria o itinerário de Calouste Gulbenkian pela Transcaucásia demonstram não só o seu rigor formal, mas também uma invulgar capacidade de investigação visual, unindo o arquivo histórico a uma sensibilidade contemporânea única.
A inclusão da sua obra na nossa programação representa uma oportunidade de apresentar ao público um corpo de trabalho que dialoga com as questões centrais da atualidade — a relação entre o homem e a natureza, a identidade e o tempo — sempre através de um olhar poético e tecnicamente impecável.
José Maçãs de Carvalho
Curadoria Artes Visuais PDL26