A relação de Nuno Cera com a tradição moderna da fotomontagem manifesta-se através da desconstrução da imagem documental para criar composições que sugerem novas realidades espaciais e temporais.
Embora o seu trabalho utilize frequentemente a fotografia sem manipulação, a influência desta tradição é visível na forma como o artista organiza e sobrepõe elementos visuais para evocar conceitos abstratos e atmosféricos.
Tal como os pioneiros da fotomontagem moderna, Cera utiliza a montagem (tanto na fotografia como no vídeo) para quebrar a continuidade do real, criando o que descreve como uma “arqueologia e memória do tempo presente”.
Nesta série o artista recorre a imagens de objetos suspensos que parecem flutuar em paisagens, evocando a técnica de colagem e montagem ao articular o “corpo expandido” da imagem com texturas sobrepostas, nalguns casos como imagens realizados nos Açores e tratados com ferramentas de Inteligência Artificial.
O seu trabalho frequentemente desloca a tipologia tradicional do retrato ou da paisagem para um campo de “referências equívocas”, aproximando a fotografia da pintura e questionando as condições da perceção, uma preocupação central nas vanguardas do século XX.
José Maçãs de Carvalho
Curadoria de Artes Visuais_Ponta Delgada-Capital Nacional da Cultura
