A obra de Neves e Sousa ocupa um lugar singular no imaginário visual do século XX português, não apenas pela sua relevância artística, mas pela forma como convoca questões que permanecem profundamente atuais: o olhar, a memória, a circulação cultural e a relação entre territórios. O seu trabalho constrói um arquivo sensível onde arte, observação e experiência vivida se cruzam, abrindo espaço a leituras críticas que hoje se revelam essenciais para pensar heranças, continuidades e deslocações.
A exposição Travessia inscreve-se nessa perspetiva de diálogo e de descoberta, princípios centrais da PDL26 — Ponta Delgada, Capital Portuguesa da Cultura 2026. A reinterpretação da obra de Neves e Sousa por conceituados ilustradores contemporâneos tem vindo a ser desenvolvida ao longo do tempo, por capítulos, num processo que privilegia a investigação, a mediação e a criação em rede. Pela primeira vez, este conjunto é apresentado em Ponta Delgada, reunindo um núcleo significativo de trabalhos que materializa um momento de partilha e de circulação, coerente com a visão estratégica da PDL26 enquanto plataforma de encontro entre geografias, tempos e linguagens.
A colaboração com o Município de Oeiras, território que partilha uma visão estruturada e ambiciosa da cultura e que se afirmou também como candidato a Capital Europeia da Cultura, traduz uma relação construída a partir de valores comuns: a aposta em processos continuados, o cruzamento entre património e criação contemporânea, e a cultura enquanto espaço de reflexão crítica e de participação. Esta proximidade não é circunstancial; resulta de uma vontade clara de pensar a cultura para além dos limites administrativos, afirmando redes de cooperação que reforçam o espaço cultural português no contexto europeu e atlântico.
Ao acolher em Ponta Delgada um projeto desenvolvido pela Livraria-Galeria Municipal Verney de Oeiras, a PDL26 sublinha a importância da circulação de práticas e de conteúdos culturais, valorizando o tempo longo da criação e da investigação. As obras aqui reunidas não se limitam a reinterpretar um legado; ativam-no, convocando novas perguntas sobre quem narra a memória, a partir de que lugares e com que responsabilidades. Este gesto crítico é fundamental para uma programação cultural que se quer inclusiva, consciente e atenta às complexidades do presente.
Este catálogo surge, assim, como testemunho de um percurso partilhado. Uma travessia que liga a obra de Neves e Sousa à criação contemporânea, Oeiras a Ponta Delgada, e o passado ao futuro. Em sintonia com a PDL26, esta exposição afirma a cultura como um espaço vivo de circulação, encontro e construção coletiva de sentido, onde cada capítulo é simultaneamente memória e possibilidade.
