A canção de câmara de tipo erudito surge tardiamente em Portugal. Só a partir do final do século XIX é que este género musical, com características semelhantes às do Lied, desenvolvido na Alemanha, ou da Mélodie, desenvolvida em França, ganha interesse e popularidade entre os compositores e intérpretes portugueses.
No decorrer do século XX, a canção de câmara torna-se uma poderosa forma de expressão artística em Portugal, permitindo aos compositores portugueses transmitir a sua visão do mundo através da música e da poesia, combinando elementos da tradição musical portuguesa com as técnicas e formas da música erudita e contribuindo, desta forma, para a criação de um estilo peculiar.
“Cantares da Alma Portuguesa”, título dado ao recital de canto e piano aqui proposto, apresenta uma seleção de canções dos mais representativos compositores da música erudita portuguesa do século XX, tais como Croner de Vasconcelos, Frederico de Freitas, Luís de Freitas Branco, Ivo Cruz, Lopes Graça, Joly Braga Santos, Viana da Motta, Francisco de Lacerda e Eurico Carrapatoso, escritas sob a inspiração do Cancioneiro Popular e das palavras de renomados poetas e escritores, como Luís de Camões, António Nobre, Afonso Lopes Vieira, Fernando Pessoa, Rodrigues Lobo, Florbela Espanca, João de Deus, Almeida Garrett e Guerra Junqueiro.
Através dos textos e poesias destes grandes mestres, exaltados por compositores que souberam magistralmente retratar, nas suas composições, todo o sentimento e beleza presentes nas palavras dos poetas, somos levados por uma viagem musical repleta de paixão, melancolia e esperança, em que cada canção é um mergulho nas profundezas da alma lusitana e uma verdadeira celebração da língua e da cultura portuguesa.
Apesar de tardia em Portugal, a canção de câmara tem desempenhado um papel importante na preservação e renovação da música erudita nacional. Combinações únicas de música tradicional portuguesa com influências eruditas têm dado origem a composições ricas e poderosas, que têm vindo a conquistar audiências dentro e fora do país. Ela representa um legado musical único e valioso, que continua a cativar e inspirar os amantes da música clássica até aos dias de hoje.
Programa
Jorge Croner de Vasconcellos (1910–1974)
Descalça vai para a fonte — soneto de Luís de Camões
Na fonte está Leonor — soneto de Luís de Camões
Frederico de Freitas (1902–1980)
O meu menino é d’oiro — texto do Cancioneiro Popular
E sabor hei da ribeira — texto do Cancioneiro Popular
Luís de Freitas Branco (1890–1955)
A Sulamita — poema de Antero de Quental
Manuel Ivo Cruz (1901–1985)
Mágoas d’Anto — poema de António Nobre
Esta palavra saudade — poema de Afonso Lopes Vieira
Fernando Lopes Graça (1906–1994)
Alma minha gentil — soneto de Luís de Camões
Quem embarca — texto do Cancioneiro Popular
Eurico Carrapatoso (1962–)
Eu — poema de Florbela Espanca
Joly Braga Santos (1924–1988)
Gato que brincas na rua — poema de Fernando Pessoa
Canção de embalar — texto do Cancioneiro Popular
Formoso rio Liz — poema de Rodrigues Lopo
Vianna da Motta (1868–1948)
Canção perdida — poema de Guerra Junqueiro
A estrela — poema de Almeida Garrett
A luz — poema de João de Deus
Lavadeira e caçador — poema de João de Deus
Francisco de Lacerda (1869–1934)
Trovas (1926–1929) — textos do Cancioneiro Popular
Desde que os cravos e rosas
Ó fonte que estás chorando
Não morreu nem acabou
Quero cantar ser alegre
