Depois de um intenso processo de criação participativa, a cidade de Ponta Delgada tornou-se palco da performance As canções que cantamos contra os muros que limpamos, um projeto de Catarina Vieira integrado na programação da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026. Resultado de uma oficina desenvolvida ao longo de sete dias com mulheres da comunidade, a apresentação transformou o espaço público num lugar de escuta, memória e afirmação coletiva.
Mais do que uma performance, esta foi a materialização de um processo de encontro. Durante uma semana, mulheres de diferentes idades, percursos e experiências reuniram-se para partilhar histórias, emoções, silêncios e canções. Através da voz, do movimento e da escrita, construíram um repertório comum onde as vivências individuais deram origem a uma criação coletiva, demonstrando que a arte pode nascer da confiança, da escuta e da disponibilidade para caminhar lado a lado.
O percurso pelas ruas da cidade conferiu uma nova dimensão às vozes das participantes. Habituadas, ao longo da história, a serem remetidas para a esfera privada ou ao silêncio, estas vozes ocuparam o espaço público com delicadeza e determinação, inscrevendo novas narrativas na paisagem urbana. Cada canção, cada palavra e cada gesto transformaram as ruas de Ponta Delgada num território de memória, resistência e pertença, onde o quotidiano deu lugar à possibilidade de imaginar outras formas de habitar a cidade.
Sem protagonistas individuais, a força da performance residiu precisamente no coro. A harmonia construída entre diferentes vozes revelou que a singularidade de cada mulher não se perde no coletivo; pelo contrário, encontra nele um lugar de amplificação. O resultado foi um momento de rara beleza, onde o canto se tornou um gesto de cuidado, de reconhecimento mútuo e de afirmação da presença feminina na cidade.
Ao envolver diretamente a comunidade no processo criativo, As canções que cantamos contra os muros que limpamos reafirmou o compromisso da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026 com práticas artísticas participativas que colocam as pessoas no centro da criação. Mais do que apresentar um espetáculo, este projeto deixou um rasto invisível, mas profundamente duradouro: o das vozes que, durante demasiado tempo silenciadas, encontraram finalmente espaço para serem escutadas e para ecoarem, em conjunto, pelas ruas da cidade.