Catarina e a Beleza de Matar Fascistas provoca reflexão e conquista o público no Teatro Micaelense

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02 jun 2026
Catarina e a Beleza de Matar Fascistas provoca reflexão e conquista o público no Teatro Micaelense

Catarina e a Beleza de Matar Fascistas afirmou-se em Ponta Delgada como um poderoso exercício de pensamento crítico, demonstrando a capacidade do teatro para interrogar a sociedade, estimular o debate e convocar a reflexão sobre os desafios do presente.

Nos dias 30 e 31 de maio, o Teatro Micaelense recebeu duas sessões de Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, espetáculo de Tiago Rodrigues integrado na programação da Ponta Delgada Capital Portuguesa da Cultura 2026. As duas sessões reuniram um público expressivo, confirmando o interesse e a expectativa em torno de uma das mais reconhecidas criações do teatro português contemporâneo.

Considerada uma das obras mais marcantes da dramaturgia portuguesa das últimas décadas, a peça coloca o público perante uma questão desconfortável e inevitável: até onde pode ir uma sociedade na defesa da democracia? A partir desta premissa, Tiago Rodrigues constrói uma narrativa intensa, capaz de desafiar convicções e de confrontar os espectadores com dilemas éticos de grande complexidade.

A ação decorre no seio de uma família para quem matar fascistas se tornou uma tradição transmitida de geração em geração. Catarina, a mais jovem descendente, é chamada a cumprir o ritual que marcou a história dos seus antepassados. No entanto, ao recusar-se a executar o homem escolhido para morrer, desencadeia um profundo conflito familiar e ideológico que coloca em causa as certezas de todos os presentes.

Mais do que apresentar respostas, o espetáculo procura abrir espaço à dúvida e à reflexão. Através de diálogos incisivos e de uma construção dramatúrgica rigorosa, a peça questiona os limites da violência política, a legitimidade da resistência e a responsabilidade individual perante as ameaças à liberdade e aos valores democráticos.

A encenação destaca-se pela sobriedade e pela eficácia dos seus recursos cénicos. O espaço de representação, aparentemente simples, transforma-se num lugar de confronto físico e simbólico, onde cada gesto, cada silêncio e cada palavra adquirem um significado particular. A tensão dramática mantém-se constante ao longo de toda a apresentação, envolvendo o público numa experiência de grande intensidade emocional e intelectual.

O elenco revelou uma notável solidez interpretativa, conseguindo transmitir a complexidade das personagens e a densidade dos conflitos que atravessam a narrativa. Entre momentos de maior confronto e instantes de reflexão mais contida, os intérpretes conduziram o público por um percurso exigente, onde as fronteiras entre razão, emoção, convicção e dúvida se revelam permanentemente instáveis.

No final de ambas as sessões, os prolongados aplausos evidenciaram o impacto do espetáculo junto dos espectadores. Num tempo marcado pelo ressurgimento de discursos extremistas e pela crescente polarização do debate público, Catarina e a Beleza de Matar Fascistas afirmou-se em Ponta Delgada como um poderoso exercício de pensamento crítico, demonstrando a capacidade do teatro para interrogar a sociedade, estimular o debate e convocar a reflexão sobre os desafios do presente.

A passagem da obra pela programação da PDL26 constituiu, assim, um dos momentos mais relevantes da sua temporada cultural, reafirmando o compromisso da Capital Portuguesa da Cultura com a apresentação de propostas artísticas capazes de questionar, provocar e envolver ativamente os seus públicos.

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