Entre os dias 3 e 12 de fevereiro, o Teatro do Frio esteve em São Miguel, no âmbito da programação da Capital Portuguesa da Cultura 2026, com o projeto Onde está a Festa?!, uma iniciativa de criação e intervenção artística pluridisciplinar centrada na participação das comunidades, com especial enfoque no público jovem e escolar.
Dando continuidade a anteriores projetos desenvolvidos em Ponta Delgada, na oficina o Largo, esta residência artística procurou refletir sobre o espaço público como lugar de encontro, transformação e convivência, questionando de que forma é possível criar, intervir e celebrar a vida e a arte num espaço comum.
Ao longo de duas semanas, o projeto desenvolveu-se em estreita colaboração com a Escola Secundária Antero de Quental e com diversos parceiros locais, envolvendo alunos, professores e comunidade num conjunto diversificado de atividades.
Entre estas destacaram-se as Sessões de Pensamento, orientadas Tomás Magalhães Carneiro, especialista em Filosofia para Crianças, que desafiou os participantes a refletir sobre cidadania, comunidade e utilização do espaço público, num ambiente de escuta e partilha de ideias.
O programa incluiu ainda uma masterclass, ministrada pelo mesmo filósofo, dedicada à importância da pergunta enquanto instrumento de conexão e imaginação coletiva, bem como a residência aberta Fazer Largo, onde as ideias recolhidas nas Sessões de Pensamento foram transformadas num manifesto visual através da criação de posters em serigrafia, desenvolvidos com alunos do curso de Artes Visuais.
Durante os dias de trabalho, realizaram-se igualmente encontros informais com a comunidade local, proporcionando momentos de diálogo e reflexão sobre o presente e o futuro do Largo Mártires da Pátria, espaço central deste processo artístico e participativo.
A professora Alexandra Batista, docente da Escola Secundária Antero de Quental e coordenadora do departamento de Artes Visuais e Informática, e que integra também o grupo que dinamiza a Oficina do Largo, um espaço de carácter laboratorial que procura estabelecer uma ligação viva entre a escola e a cidade, acompanhou de perto este projeto. Para Alexandra Batista, o Largo Mártires da Pátria é um lugar singular, atravessado diariamente por pessoas muito diferentes, e este projeto procurou envolver não apenas a escola, mas também todos aqueles que convivem quotidianamente com aquele espaço.
Na sua perspetiva, a presença do Teatro do Frio constituiu um importante estímulo à reflexão coletiva, convidando a comunidade a pensar em conjunto e a contribuir para a construção de um lugar onde todos se possam sentir bem. Depois de acompanhar as diferentes Sessões de Pensamento, a professora destacou, sobretudo, a motivação demonstrada pelos alunos, sublinhando que existe entre eles uma grande vontade de dinamizar o espaço e de participar ativamente na sua valorização.
Alexandra Batista recordou ainda um episódio que considera simbólico da relação das pessoas com o Largo Mártires da Pátria, dizendo que quando o antigo espaço de estacionamento foi transformado em jardim, não foi inicialmente criada uma passagem pedonal. Naturalmente, as pessoas começaram a atravessar a relva, encurtando caminho, deixando marcas no terreno onde a vegetação deixou de crescer. Algum tempo depois, esse percurso, eleito indiretamente por todos o que o atravessavam, acabou por ser pavimentado. Para a professora, o trabalho do Teatro do Frio tem um significado semelhante, ajudando as pessoas a pensar o Largo e a ir desenhando, passo a passo, o seu destino, para que no futuro este espaço possa ser reconhecido como um lugar construído e idealizado em conjunto.
O projeto culminou, no dia 12 de fevereiro, no Espaço Rubro, com um momento final de encontro e celebração aberto ao público, onde foram apresentados os desejos e ideias recolhidos ao longo das sessões, bem como os materiais produzidos durante a residência. A coleção física de posters e testemunhos foi entregue à Oficina do Largo, ficando também disponível em formato digital no arquivo do Teatro do Frio.
