“Ai, tu é que és o meu rapaz”, cena operática de Sara Ross e do Quarteto Contratempus, foi apresentada entre os dias 4 e 6 de fevereiro, no Auditório da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, a jovens de diferentes estabelecimentos de ensino secundário da cidade, numa iniciativa que articulou criação artística, mediação cultural e sensibilização social.
Dirigido ao público escolar, o projeto inicial resultou de uma encomenda realizada em 2022 pelo Quarteto Contratempus à compositora Sara Ross, natural da Ribeira Grande, no âmbito de um programa dedicado à temática da violência contra a mulher. A partir desse desafio, a autora desenvolveu um processo de investigação que a conduziu a um caso real, amplamente mediatizado em 2017, utilizando como base documental o acórdão do tribunal para a construção dramatúrgica e musical da obra.
Em entrevista à equipa de comunicação da PDL26, Sara Ross destacou que o formato breve da ópera e a intensidade da narrativa favoreceram a sua adaptação a um contexto educativo, permitindo a criação de um modelo de intervenção assente em duas vertentes complementares, artística e pedagógica. Antes de assistirem à apresentação, os alunos participaram, em contexto de sala de aula, em sessões dinamizadas por representantes da UMAR Açores e da APF Açores, centradas na violência nas relações, com particular incidência nas dinâmicas do namoro e nas manifestações em ambiente digital, procurando promover a reflexão crítica e dotar os jovens de instrumentos para reconhecer sinais de relações não saudáveis.
Maria José Raposo, Presidente e Coordenadora da UMAR Açores, salientou a relevância da articulação entre as instituições e os agentes culturais, considerando que iniciativas e parcerias desta natureza reforçam a capacidade de chegar a um maior número de jovens e de trabalhar, em contexto escolar, a promoção de relações saudáveis e a identificação de comportamentos de risco, defendendo ainda o potencial das artes como instrumento privilegiado de educação e sensibilização.
Também Isabel Cogumbreiro, técnica da APF Açores, sublinhou a importância da prevenção e da intervenção precoce junto das camadas mais jovens, referindo que os momentos de diálogo após o espetáculo evidenciaram a eficácia do trabalho prévio desenvolvido nas escolas. Destacou, igualmente, que se trata de um tema ainda pouco abordado no ensino formal e que, apesar da vontade demonstrada pelos jovens em combater a violência, persistem dificuldades na identificação das suas formas mais subtis, sobretudo nas redes sociais.
Para Alexandra Mendes, Vice-Presidente do Conservatório de Ponta Delgada, que acompanhou a sua turma ao espetáculo, iniciativas desta natureza assumem uma dimensão formativa determinante, não apenas do ponto de vista artístico, mas também pela relação que estabelecem com problemáticas sociais contemporâneas. Na sua perspetiva, é fundamental que os jovens, enquanto cidadãos e futuros profissionais, desenvolvam consciência crítica e procurem posicionar-se ativamente na construção de uma sociedade mais justa, podendo recorrer à própria arte como instrumento de intervenção.
Projetos desta natureza evidenciam a importância da arte como instrumento de leitura do mundo contemporâneo e como motor de transmissão da realidade social, afirmando-se simultaneamente como espaço de consciencialização e de combate a problemáticas estruturais. Ao convocar a criação artística para o debate público, iniciativas como esta reforçam o papel da cultura na formação cívica das novas gerações e na mobilização da sociedade para a prevenção e enfrentamento de fenómenos como a violência nas relações, que continuam a constituir um dos flagelos mais persistentes na nossa Região Autónoma.
